Desodorizante causa cancro?

25 | 09 | 2021
Desodorizante causa cancro?

por Sara Ferreira, Farmacêutica e Naturopata Ayurvédica, Formadora Curso de Cosmética Natural certificado

INTRODUÇÃO

Nas últimas duas décadas levantou-se a questão sobre a possível relação entre o uso de desodorizante e/ou anti-transpirante e o aumento da incidência de cancro de mama. Esta hipótese baseia-se nas seguintes observações:

1-foram encontrados parabenos, conservantes e alumínio nos tecidos da mama com cancro;

2-foram observados efeitos mutagénicos ou desestabilizadores do DNA destes substâncias em linhas celulares;

3-estudos epidemiológicos mostram que as mulheres com cancro de mama que fazem a depilação e usam desodorizante, mais do que 2 vezes por semana, são mais jovens 15 anos do que as que não têm estes hábitos.

Nestas duas décadas o assunto tem-se debatido frequentemente, mas nenhum estudo clínico em humanos foi desenhado corretamente para termos uma conclusão objetiva. No entanto, é condição de todo o estudo clínico a análise de apenas um parâmetro, logo muito difícil de concluir dada a complexa composição dos desodorizantes e a a causa multifatorial do cancro. 

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO?... vamos analisar a composição

O desodorizante e anti-transpirante precisa de ter substâncias que controlem o odor e/ou com ação anti-transpirante, ou seja, capazes de controlar a proliferação bacteriana, neutralizar os odores, fechar os poros da pele ou bloquear os ductos das glândulas sudoríparas. Com esta finalidade, a principal substância utilizada nos desodorizantes e anti-transpirantes é o cloridrato de alumínio, mas é também usada a pedra de alúmen (KAl(SO₄)₂). A diferença na formulação entre desodorizante e anti-transpirante está, na maioria das vezes, associada à percentagem deste composto na formulação.

Mas além destes ingredientes, os desodorizantes e anti-transpirantes contêm ainda muitos aditivos de formulação com a finalidade de não manchar a roupa (substâncias que aumentam a penetração cutânea) e cheirar bem (normalmente perfume de síntese )...não esquecendo os solventes, reguladores de pH, estabilizantes e conservantes.

A questão torna-se complexa e difícil de analisar pois são muitos os químicos de síntese que pode encontrar no seu desodorizante e anti-transpirante, sendo que todos são aprovados com base em estudos de curta duração, não considerando a sinergia entre eles ou o impacto no organismo da sua absorção percutânea. A questão torna-se difícil de controlar porque a legislação não proíbe o uso de substâncias mutagénicas nos desodorizantes e anti-transpirantes, apenas limita a sua %no cosmético e obriga a sua notificação no portal europeu dos cosméticos.

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO?...vamos analisar o alumínio

O alumínio é usado nos desodorizantes e anti-transpirantes pela sua ação anti-bacteriana e anti-transpirante. O mecanismo de ação é mediado pela contração dos canais glandulares e pelo seu bloqueio quando precipita no interior destas na forma de hidróxido de alumínio.

A forma de alumínio mais utilizado dos desodorizantes e anti-transpirantes é o cloridrato de alumínio AlnCl(3n-m)(OH)m e o cloreto de alumínio, mas a cosmética natural usa o sulfato de alumínio (sal potássico), a pedra natural de alúmen ou pedra hume.

Vejam os factos contra o seu uso:

1-O alumínio é pro-oxidante e irritante para a pele, contribuindo para a dermatite axilar, bastante comum na população feminina. Portanto, do ponto de vista dermatológico é um ingrediente a evitar, pois o seu uso prolongado prejudica a função barreira da pele e aumenta a absorção percutânea.

2-O alumínio causa alterações no DNA de células epiteliais do tecido mamário e afeta os mecanismos de reparação, sendo as alterações observadas semelhantes às fases iniciais de um tumor maligno.

3-Estudos mostram que os níveis de alumínio no organismo, que resultam também da dieta e do ambiente (água), são mais elevados na parte superior do abdómen, o que sugere que nesta área o alumínio não tenha origem apenas na dieta e no ambiente mas também na absorção percutânea deste metal pelo uso de cosméticos.

4-A transpiração é uma forma de eliminação corporal de toxinas e contribui ainda para a formação do manto hidro-lipídico da pele, responsável pela sua função barreira, logo não deve ser bloqueada.

Vejam os factos a favor:

1-A absorção percutânea do cloridrato de alumínio quando usado sob a forma de desodorizante e anti-transpirante é baixa, por isso continua aprovado o seu uso na Cosmética em geral. Os estudos que aprovam esta decisão não têm longa duração e não medem o impacto da formulação ou do estado da pele no aumento da absorção percutânea.

2-As mulheres preferem os desodorizantes e anti-transpirantes com alumínio pois têm um efeito anti-transpirante superior.

Quer saber mais? (PDF) If exposure to aluminium in antiperspirants presents health risks, its content should be reduced (researchgate.net)

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO?...a questão da absorção percutânea

A absorção percutânea dos ingredientes de uma formulação desodorizante não é uma análise obrigatória aquando da sua introdução no mercado. A atual legislação obriga apenas a notificar a %de substâncias mutagénicas, de substâncias tóxicas para o aparelho reprodutor e de nanomateriais. O relatório de segurança de um desodorizante baseia-se em dados toxicológicos realizados em linhas celulares ou animais, sendo que a absorção percutânea não é um dado obrigatório e não existem dados sobre a sua eliminação ou acumulação nos tecidos. 

No entanto...

Um estudo independente de uma aplicação única de desodorizante demonstrou uma absorção de cloridrato de alumínio igual a 0,012% (2001). Outro estudo independente comparou diferentes formulações de cloridrato de alumínio, tendo observado que uma absorção superior na formulação aerossol e ˂0,07%. O mesmo estudo provou que a absorção percutânea é 6,35vezes superior numa pele com dano (após a barba) e ˂0,4%, testado com uma formulação do tipo stick. Este estudo teve a duração de 24h e foi realizado em 2012.

A polémica estava então instalada, de modo que o Comité Científico de Segurança Do Consumidor encomendou um estudo de biodisponibilidade do cloridrato de alumínio.

Em 2019 foi publicado um estudo de apenas 1 dia de aplicação de uma formulação equivalente a 25% de cloridrato de alumínio e os resultados mostraram que mais de 95% deste não é absorvido, sendo que 62% deste se perde pela lavagem com água e 6% deste se perde na roupa. Da percentagem de alumínio que permanece na pele ˂5%, ao fim de 840horas apenas 0,00004% se mantém na pele. Estimou-se ainda que quando o alumínio entra no organismo, mais de 50% é eliminado pelos rins.

Com base nestas observações e outras, o Comité Científico de Segurança do Consumidor em 2020 aprovou o uso de compostos de alumínio nos desodorizantes com os seguintes limites:

6,25% nas formulações não-spray, 10,60% nas formulações spray.

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO?... natural é seguro?

Os estudos sobre os danos do alumínio no material genético celular foram realizados com o cloridrato de alumínio, o que levou ao aumento da utilização de pedra de alúmen como desodorizante e anti-transpirante, por ter origem natural. No entanto, é também uma fonte de alumínio mas na forma de sal de sulfato de alumínio.

Não existem dados científicos sobre a segurança dermatológica no uso da  pedra hume KAl(SO₄)₂ como desodorizante e anti-transpirante, nem dados toxicológicos. No entanto, o seu uso é apoiado pelo uso tradicional, pois foi usado desde a época dos Egípcios e Romanos como anti-transpirante e hemostático após a barba. É um sal composto estável que hidrata em contacto com a água formando um complexo hidratado estável em condições fisiológicas e, pelo seu tamanho molecular, hipoteticamente, dificilmente terá uma absorção percutânea. A questão que se levanta é que sendo fracamente solúvel em água, em que percentagem acumula na pele e quais as consequências do seu uso diário.

A pedra de alúmen tem uma ação bacteriostática sobre a flora bacteriana axilar e é adstringente, controlando o odor e diminuindo a transpiração. Existe naturalmente nas rochas mas pode ser produzida sinteticamente por ação do ácido sulfúrico sobre um mineral que contém alumínio (xisto, bauxite, criolite), seguido de tratamento por hidróxido de potássio.

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO?... o que pensa a Cosmos?

A Cosmos não aprova o uso cloridrato de alumínio nos desodorizantes e anti-transpirantes mas aprova a pedra hume, ou Kalunite Potassium Alum de origem natural ( DKSH FRANCE). Quando adquirir a sua pedra hume compre de uma marca certificada orgânica para garantir a sua origem natural.

A Cosmos autoriza o uso de argilas-minerais nos desodorizantes cuja eficácia se deve ao conteúdo em silicato de alumínio com ação absorvente ou adsorvente, consoante a sua estrutura, São exemplos o zoolite, o bentonite, a Illite e o Kaolin.


Como alternativas ao alumínio, a Cosmos aprova como ingredientes nos desodorizantes:

1- Hidróxido de magnésio e o carbonato de magnésio - neutralizam os ácidos produzidos pelas bactérias responsáveis pelo mau odor. Não diminui a transpiração mas diminui o mau odor;

2- Gluconato de zinco e lactato de zinco, pelo efeito anti-séptico e secante. O zinco diminui ainda a atividade das glândulas sebáceas, sendo que os lípidos são uma das fontes de mau odor nas axilas;

3- Prata coloidal, pelas suas propriedades anti-sépticas;

4- Sodium Zinc Polyitaconate (laboratórios Itaconix), um sal orgânico obtido por fermentação do amido com propriedades adsorventes, produto da biotecnologia verde.

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO?... o que pensa a Ayurveda?

A Ayurveda defende que devemos colocar na pele apenas o que podemos ingerir. Essa foi a minha inspiração ao desenvolver o Deo Sensibio , um desodorizante com extrato de salva com ação adstringente, Kaolin com ação absorvente e óleos essenciais com ação anti-séptica. A formulação forma uma película absorvente que mantém a pele seca até 12h. O Kaolin tem uso medicinal tradicional como anti-ácido e no tratamento da diarreia, portanto também seguro para usar na pele. Não contém químicos de síntese. 

Toda a gama Sara BioKosmética é isenta de conservantes e mantém as suas propriedades graças à presença de óleos essenciais com propriedades terapêuticas para a pele e ação conservante simultaneamente.

Quer saber mais? https://www.sarabiokosmetica.com/deo-sem-aluminio

DESODORIZANTE CAUSA CANCRO…caseiro com bicarbonato devo usar?

O bicarbonato de sódio é um ingrediente cosmético usado como abrasivo nas pastas dentífricas branqueadoras e ainda para corrigir o pH das formulações. A sua aplicação nos desodorizantes deve-se à sua capacidade de neutralizar os odores ácidos e inibir a proliferação bacteriana. Nas formulações desodorizantes pode ser usado desde que seja controlado o pH da formulação final. Não deve ser usado como desodorizante em formulações tipo pasta pois é irritante para a pele.


DESODORIZANTE CAUSA CANCRO…posso aprender a fazer desodorizante seguro e dermatológico?

Sim, no Curso de Cosmética Natural. Poderá preparar os seu desodorizante e anti-transpirante em sua casa, de forma fácil, eficaz e económica, beneficiando dos efeitos de um desodorizante personalizado e sem químicos de síntese. Vai utilizar apenas ingredientes naturais e biológicos e aprender técnicas cosmecêuticas que não emitem poluentes ou desperdícios para o meio ambiente, portanto uma cosmética mais sustentável e zero waste.

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CONCLUSÃO

O cancro de mama é multifatorial, sendo consensual factores hereditários, terapia hormonal de substituição (durante mais de 5 anos), álcool, poluição ambiental e estilo de vida moderno como fatores de risco major. A exposição da mulher a substâncias capazes de causar instabilidade na molécula de DNA (como as substâncias pro-oxidantes) e substâncias disruptoras do sistema hormonal (capazes de se ligarem aos receptores de estrogénio alterando a sua função) são também fatores a considerar. Os sais de alumínio, os parabenos e os plásticos são exemplos de substâncias que devemos evitar, mesmo que os dados científicos ainda sejam inconclusivos.

O cloridrato de alumínio causa danos no DNA. O uso diário de formulações com formulações de cloridrato de alumínio é desaconselhado. O seu uso pontual tem segurança comprovada, pela baixa absorção percutânea.

Os silicatos de alumínio (mineral-argilas)são seguros para a saúde pois tratam-se de cristais e não libertam alumínio catiónico em condições fisiológicas.

O uso diário de pedra de alúmen é irritante para a pele e bloqueia a transpiração, um mecanismo fisiológico de eliminação. Não existem estudos de segurança no seu uso dermatológico. O seu uso pontual é suportado pelo seu uso tradicional.

O uso de desodorizantes e anti-transpirantes com alumínio, pela sua fraca absorção percutânea e elevada solubilidade em água, afeta o Ambiente e os Ecossistemas.

O uso de Sodium Zinc Polyitaconate, um ingrediente biotecnológico sem alumínio, pode ser o futuro nos desodorizantes mas ainda prematuro para o afirmar.


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